sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Uma valsa para Lila Ripoll

Lila Ripoll, em foto que circula por aí sem créditos
Depois de dois meses de silêncio, retorno a este negligenciado blog para compartilhar um poema inédito, que acaba de ser premiado com o segundo lugar no Concurso Lila Ripoll de poesia.

Atualmente na sua 13a. edição, o Prêmio Lila Ripoll foi instituído em 2004 pela Assembleia Legislativa do RS para estimular a criação artística por meio da poesia dedicada às causas sociais e questões de gênero e dar visibilidade a novos talentos literários. O prêmio será entregue em cerimônia pública, na próxima semana, e os poemas selecionados serão publicados em uma separata, com distribuição gratuita.

Lila Ripoll (1905-1967) foi professora, pianista (estudou música, como eu, no que hoje é o Instituto de Artes da UFRGS), jornalista e militante sindical. Gaúcha de Quaraí, colaborou com diversos jornais do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro e foi candidata a deputada pelo PCdoB. Neste domingo, completam-se 113 anos do seu nascimento. Destacando-se no meio literário gaúcho da época, de esmagadora maioria masculina, publicou oito livros de poesia, obra hoje injustamente pouco conhecida. A Editora da UFRGS publicou, em 1987, uma antologia de seus poemas intitulada Ilha Difícil, que não é nada difícil de encontrar em sebos, e que recomendo. A Obra Completa foi publicada em 1998, pelo Instituto Estadual do Livro e Editora Movimento.

Antecipo aqui o poema, rascunhado numa visita a Viena, ano passado, e terminado no verão de 2018, em Bombinhas SC. (Terminado é modo de dizer, já que acabo de fazer uma pequena alteração no antepenúltimo verso. Sempre dá pra melhorar, não é?) Como de costume, sugiro ler em voz alta, prestando atenção no ritmo, formado pelas sílabas tônicas.

Pequena Valsa Vienense


Multiplicar palácios como passatempo
e abarrotá-los de ouro e bugigangas
- produtos do saque, do roubo e do massacre -
e a cada baile reformá-los novamente.

Acaso sem escravos pode haver impérios?

Erguer igrejas para disfarçar o tédio,
afugentar a culpa e engordar os bispos,
sob o pretexto de glorificar um deus
do qual o seu poder supostamente emana.

Acaso houve algum império sem escravos?

Chamar poetas, menestréis e outros bobos
e regalar-lhes as migalhas do banquete,
e encarregá-los de cantar, aos quatro ventos,
a glória eterna das cabeças coroadas.

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