sábado, 22 de setembro de 2018

Uma menção para o Manguezal

"Areia preta na praia / Sobre a branca faz desenhos"
E mais um poema acaba de receber menção honrosa num concurso nacional. É o Prêmio Nacional de Literatura dos Clubes, promovido pelo Sindicato de Clubes do Estado de São Paulo, Academia Paulista de Letras e Federação Nacional de Clubes, aberto a escritores associados a clubes que fazem parte desta última. Em sua terceira edição com abrangência nacional, o prêmio teve 170 inscritos de 26 cidades, nas três categorias (poesia, conto e crônica), premiando três trabalhos em cada uma, além das menções honrosas.

A cerimônia de entrega será em São Paulo, em data a ser marcada. Os trabalhos premiados poderão ser publicados em livro.

O poema, que transcrevo a seguir, foi inspirado num passeio de canoa pela foz do Rio de Contas, em Itacaré BA, em 2015. Sobre ele, assim se expressou o júri formado pelos escritores Anna Maria Martins, Mafra Carbonieri e Joaquim Maria Botelho: "Um exercício ternário, trissílabo, remete a um gotejar de acontecências que se espraiam em heptassílabos, caem para redondilhas menores e reassumem o ritmo ternário. Isso, na forma. No conteúdo, debate social, inquietação e inconformismo."

Mas há outra característica sonora no poema, tão importante quanto o ritmo, que aparentemente escapou aos jurados: as rimas assonantes. São mais de 20 palavras paroxítonas com as vogais Ê + O (de preto/negro) e Ê + A (de preta/negra), presentes na maior parte dos versos. Confere aí:

Manguezal

Sexta-feira
Cai a noite
Lama negra
No horizonte
Lua cheia
De janeiro
Vai nascendo
Urubus no vento
Sobre o manguezal vermelho
Cidade dos caranguejos

O fumo negro da usina
Comendo a cana, comendo.
Areia preta na praia
Sobre a branca faz desenhos
Cais de pedra
Sem conserto
Água lenta
Rio que escorre
Prisioneiro

O menino magro
Vem sorrindo à toa
Tarde boa
Peixe farto
Rede cheia
O menino preto
Desce a correnteza
Pão na mesa
Bom de remo
Vai vivendo.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Uma valsa para Lila Ripoll

Lila Ripoll, em foto que circula por aí sem créditos
Depois de dois meses de silêncio, retorno a este negligenciado blog para compartilhar um poema inédito, que acaba de ser premiado com o segundo lugar no Concurso Lila Ripoll de poesia.

Atualmente na sua 13a. edição, o Prêmio Lila Ripoll foi instituído em 2004 pela Assembleia Legislativa do RS para estimular a criação artística por meio da poesia dedicada às causas sociais e questões de gênero e dar visibilidade a novos talentos literários. O prêmio será entregue em cerimônia pública, na próxima semana, e os poemas selecionados serão publicados em uma separata, com distribuição gratuita.

Lila Ripoll (1905-1967) foi professora, pianista (estudou música, como eu, no que hoje é o Instituto de Artes da UFRGS), jornalista e militante sindical. Gaúcha de Quaraí, colaborou com diversos jornais do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro e foi candidata a deputada pelo PCdoB. Neste domingo, completam-se 113 anos do seu nascimento. Destacando-se no meio literário gaúcho da época, de esmagadora maioria masculina, publicou oito livros de poesia, obra hoje injustamente pouco conhecida. A Editora da UFRGS publicou, em 1987, uma antologia de seus poemas intitulada Ilha Difícil, que não é nada difícil de encontrar em sebos, e que recomendo. A Obra Completa foi publicada em 1998, pelo Instituto Estadual do Livro e Editora Movimento.

Antecipo aqui o poema, rascunhado numa visita a Viena, ano passado, e terminado no verão de 2018, em Bombinhas SC. (Terminado é modo de dizer, já que acabo de fazer uma pequena alteração no antepenúltimo verso. Sempre dá pra melhorar, não é?) Como de costume, sugiro ler em voz alta, prestando atenção no ritmo, formado pelas sílabas tônicas.

Pequena Valsa Vienense


Multiplicar palácios como passatempo
e abarrotá-los de ouro e bugigangas
- produtos do saque, do roubo e do massacre -
e a cada baile reformá-los novamente.

Acaso sem escravos pode haver impérios?

Erguer igrejas para disfarçar o tédio,
afugentar a culpa e engordar os bispos,
sob o pretexto de glorificar um deus
do qual o seu poder supostamente emana.

Acaso houve algum império sem escravos?

Chamar poetas, menestréis e outros bobos
e regalar-lhes as migalhas do banquete,
e encarregá-los de cantar, aos quatro ventos,
a glória eterna das cabeças coroadas.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Para lembrar do Partenon Literário e seus poetas

Clique na imagem para comprar o livro (oferta imperdível,
no site da Editora)

Em 18 de junho de 1868, nascia em Porto Alegre a Sociedade Partenon Literário


E na data em que se comemoram 150 anos da fundação dessa entidade pioneira da cultura rio-grandense, criada por jovens literatos (inclusive mulheres) progressistas e abolicionistas, que no acanhado ambiente da Província de São Pedro criaram uma considerável biblioteca, uma escola noturna e a Revista do Partenon Literário, que publicou, entre outras coisas, os primeiros poemas com temática regional (ou campeira), peço licença aos leitores para abrir uma exceção neste blog de poesia e ao mesmo tempo fazer uma propaganda do meu livrinho Do Partenon à Califórnia (2004) que traça um percurso desde aquela época até o auge dos festivais nativistas, no final do Século XX, para analisar as suas canções.

Versão resumida da minha Dissertação de Mestrado Canto livre? O nativismo gaúcho e os poemas da Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul, defendida no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRGS, o livro já seria motivo de orgulho só por fazer parte da finíssima coleção "Síntese Rio-Grandense", da Editora da UFRGS, ao lado de mestres do calibre de Sandra Pesavento, Sérgio da Costa Franco, Moacyr Flores, Luís Augusto Fischer, entre outras "feras" das Letras e Humanidades.

Mas para não deixar o leitor totalmente a pé (isto é, sem o que realmente interessa), transcrevo aqui um poema de Bernardo Taveira Jr (Rio Grande, 1836 - Pelotas, 1892), um dos colaboradores da Revista do Partenon. Uma curiosidade sobre este poema é que existe uma versão musicada, que aprendi a cantar (e ainda lembro) nos bancos escolares, no Louvai Cantando, coletânea que misturava hinos luteranos e canções populares brasileiras e principalmente gaúchas. A versão que segue, integral, é de As Provincianas, edição de 1986 da Ed. Movimento e Instituto Nacional do Livro.

O tropeiro

Que vida amargada não leva o tropeiro
De dia ou de noite, no frio ou na calma!
Se o nauta nos mares perigos arrosta,
Em terra o tropeiro não cede-lhe a palma.

De estância em estância, cansando cavalos -
Cansando cavalos, o tempo se escoa;
Trabalha incansável, padece mil tratos,
Pensando na tropa que pensa ser boa.

Rodeios, apartes, corridas tremendas,
Rodadas temíveis - são cousas vulgares;
Na marcha da tropa, se o gado dispara,
É quando começam os tristes azares!

Se dá-se algum caso nas horas do dia,
Nem sempre o persegue seu fado inconstante;
Correndo, atacando com jeito e destreza,
Sossega-se a tropa - que marcha arrogante.

Nas rondas, à noite, que triste espetáculo!
Que transes, que angústias não sofre o tropeiro!
Não dorme um instante, não pára um momento,
Se o tempo se muda, se o gado é matreiro.

Mas quando, já tarde, rebrama a tormenta,
Nas asas trazendo funesta ameaça,
Ai! vida escabrosa, cercada de espinhos!
Ai! pobre tropeiro, ai! tormenta, ai! desgraça!

Agita-se o gado aos trovões que ribombam,
E, fero, revolto, mugindo, escarvando,
De chofre dispara - sem rumo e sem norte,
Aos bravos campeiros só trevas deixando!

Mil pragas, mil gritos retumbam nos ares,
Galopam cavalos transpondo negrores!
Cavalos se topam, se curvam tremendo
Ao raio que estala num pego de horrores!

No dia seguinte, passada a refega,
Sozinho no campo, quem vive? - O tropeiro
Com frio, com fome, co'a roupa alagada -
E o calo* só tendo por seu companheiro.

De novo começam trabalhos insanos
Por ínvios caminhos, por campos alheios;
Os dias se passam correndo a cavalo,
De estância em estância, pedindo rodeios.

Após mil esforços, perigos e sustos,
Lá segue, lá marcha o destroço do gado,
Da tropa o que resta, tão linda e bizarra? -
Um pobre tropeiro chorando o seu fado.

(* "cavalo")

terça-feira, 12 de junho de 2018

No dia dos namorados, um soneto para os fantasmas

Meus pais, no lançamento de Viagens de uma Caneta
Marcando mais um aniversário do meu primeiro livro, lançado por puro acaso às vésperas do dia dos namorados de 1992, aproveito para quebrar o jejum deste blog, onde não publicava nada desde março.

Não sei se se presta muito bem à efeméride, pois que nele a ironia, como de costume, se mete a disfarçar o romantismo (ou a rir dele). Julgue o leitor.



SONETO VIII


para Lu

Em torno a mim, bailando
vêm as amadas mortas, queridas,
e as esquecidas, ainda agora tentando
em mim prolongar suas vidas.


Por um nada não fomos felizes,
dizem umas, e logo ao meu pescoço
se lançam. Outras, de empinados narizes,
me acusam: "– Já não parece tão moço..."


E dançam, com vontade, as musas
de outrora, com escárnio ou ternura.
E logo a elas se juntam, confusas,


outras tantas lembranças, em tal mistura
de louras, negras, índias e cafuzas,
que já não sei meu coração o que procura.

(24/1/1991)

segunda-feira, 26 de março de 2018

Cidade de Rios e Amores



Já quase acabando o aniversário de Porto Alegre, me dou conta de que já havia compartilhado duas vezes no Facebook o vídeo, mas ainda não tinha publicado aqui a letra da canção "Rios e Amores", que me foi encomendada pelo amigo Leonardo Ribeiro, nos idos de 2002, e que ele transformou num belo samba, gravado no seu disco Ponto de Fronteira(link para ouvir o CD inteiro)

É uma das duas parcerias minhas que foram gravadas com brilho pelos parceiros (a outra é "Cerrado", com Luís Felipe Gama)

O clipe acima foi editado por Vinícius Brittes , na Oceano Produções, para exibição num Baile da Cidade, nos tempos em que esse evento aconteci no Parque Farroupilha.

RIOS E AMORES

Porto:
Alegre, mas não sem dor
Foste
destino para os casais
Passam
por ti caminhos demais
Ponto
de encontro de rios e amores

Junto
de um lago – ou rio? – imortal
Avisto
A Usina como um farol
Tinge
de ouro o céu outonal
Festa
de cores no Pôr-do-Sol 

Montes
com a cidade a seus pés
Águas
que sempre são outras águas
Ventos
que brincam pelas calçadas
Gente
sem a qual tu nada és

Muitos
o teu mapa percorreram
Poucos
como Quintana te leram
Passo
a vida a te decifrar
Guardas
mistérios como o luar

Porto
dos sonhos de quem migrou
Longe
de casa veio encontrar
Muitos
amigos pra repartir
Portas
abertas pra quem chegar