sábado, 10 de novembro de 2018

Um soneto pro Mansueto

O ano está quase acabando, mas ainda dá tempo para (no mínimo) mais uma boa notícia. Tive um poema premiado pelo Concurso Literário Mansueto Bernardi, realização da Prefeitura de Veranópolis RS. A cerimônia de premiação será na próxima terça-feira.
Por muitos anos deixei de participar de concursos, meio por cansaço ("pra que isso?"), meio por descrença ("é tudo marmelada!"). Só no ano passado voltei a enviar meus poemas, o que não deixa de ser uma "pressão saudável" para escrever, organizar e publicar a produção. Ah, os prazos...
Em sua décima-nona edição, o concurso homenageia o poeta Mansueto Bernardi, que residiu naquela cidade de 1942 até seu falecimento, em 1966, e que dá nome à biblioteca municipal. "Poeta", no caso, é apenas uma faceta, bem marginal até, desse cidadão, que foi um dos cérebros da Editora do Globo, nos áureos tempos desta. Nascido na Itália, foi também jornalista, professor e ocupou importantes cargos públicos no Estado e no Governo Federal.
Por coincidência, pouco antes de tomar conhecimento do concurso, eu andava garimpando num sebo aqui perto e encontrei seu livro Terra Convalescente, último que publicou, um ano antes de morrer. Contém sua poesia reunida, sob o mesmo título do que foi seu primeiro livro, lançado em 1918.
Sobre o poema premiado, uma curiosidade é eu tê-lo escrito para outro concurso, cujo regulamento (coisa relativamente rara), estabelecia um tema: “Confesso que me enternece a ideia de que, pelo menos no início dessa nova era ainda haverá avós que ensinarão suas netas a costurar roupinhas de boneca”. Deu um trabalho, tive de acrescentar os biscoitos, um cenário de ficção científica, meio apocalíptico e tal. Enviei lá pra Riberão Preto, em maio, e... nada. Mas como o  resultado me agradou, tentei de novo e deu certo. Taí ele:

Soneto XXXVI


Foi decretado, num distante ponto
do Hiperespaço, pela obra e graça
do Supremo Cérebro Eletrônico,
da Galáxia a autoridade máxima,

num idioma só das máquinas sabido,
para se comunicarem entre si,
mas logo prontamente traduzido
para a nossa Língua Geral Tupi,

a fim de amenizar a dor atroz
da humanidade, nesse mundo louco:
- Por algum tempo ainda haverá avós,

(E a quem não enternecerá a ideia?)
que ensinarão suas netas a cozer biscoitos
e costurar roupinhas de bonecas.

sábado, 20 de outubro de 2018

Vinte anos de Dança das Palavras

Clique na  imagem para ler os poemas do livro.
Aproxima-se mais uma Feira do Livro de Porto Alegre onde, há exatos vinte anos, eu autografava meu terceiro livro. Editado dentro da Coleção 2000 pelo Instituto Estadual do Livro (à época dirigido pelo Arnaldo Campos), o livro trazia 51 poemas escritos ao longo dos anos 1990. O projeto gráfico, essa lindeza aí do lado, era do Flávio Wild, que aceitou sugestões minhas e utilizou fotos que o Ricardo de Abreu Neves tirou de meus atormentados rascunhos, especialmente para a ocasião. E ainda tinha o Luís Augusto Fischer, que escreveu um "Prefácio Contra".

O título faz referência a uma ênfase maior na "música" das palavras - o ritmo e as rimas - tendência que foi se firmando cada vez mais na produção posterior, superando uma abordagem mais visual que eu tinha até então. Parte importante dessa "descoberta" deve-se à oportunidade de frequentar um curso de extensão em Poética (única "oficina" que fiz na vida), ministrado no ano anterior na PUC pelo poeta Armindo Trevisan, que insistia para lermos os poemas em voz alta (algo que eu até então achava meio vulgar). Trevisan também teve a gentileza de fazer uma leitura crítica nos originais do livro, antes de eu enviá-los ao IEL.

Para comemorar a data, disponibilizei a íntegra dos poemas no meu site. (Onde já se encontram os livros anteriores, Viagens de uma Caneta por meus Estados de Espírito, de 1992, e O Primeiro Anel, de 1996). Todos estão esgotados, mas se você gostou dos poemas, vai encontrar uma seleção deles no meu livro mais recente, Luta+vã, à venda no site da Editora Libretos.

sábado, 22 de setembro de 2018

Uma menção para o Manguezal

"Areia preta na praia / Sobre a branca faz desenhos"
E mais um poema acaba de receber menção honrosa num concurso nacional. É o Prêmio Nacional de Literatura dos Clubes, promovido pelo Sindicato de Clubes do Estado de São Paulo, Academia Paulista de Letras e Federação Nacional de Clubes, aberto a escritores associados a clubes que fazem parte desta última. Em sua terceira edição com abrangência nacional, o prêmio teve 170 inscritos de 26 cidades, nas três categorias (poesia, conto e crônica), premiando três trabalhos em cada uma, além das menções honrosas.

A cerimônia de entrega será no dia 26 de novembro, no Clube Paulistano, em São Paulo. Os trabalhos premiados poderão ser publicados em livro.

O poema, que transcrevo a seguir, foi inspirado num passeio de canoa pela foz do Rio de Contas, em Itacaré BA, em 2015. Sobre ele, assim se expressou o júri formado pelos escritores Anna Maria Martins, Mafra Carbonieri e Joaquim Maria Botelho: "Um exercício ternário, trissílabo, remete a um gotejar de acontecências que se espraiam em heptassílabos, caem para redondilhas menores e reassumem o ritmo ternário. Isso, na forma. No conteúdo, debate social, inquietação e inconformismo."

Mas há outra característica sonora no poema, tão importante quanto o ritmo, que aparentemente escapou aos jurados: as rimas assonantes. São mais de 20 palavras paroxítonas com as vogais Ê + O (de preto/negro) e Ê + A (de preta/negra), presentes na maior parte dos versos. Confere aí:

Manguezal

Sexta-feira
Cai a noite
Lama negra
No horizonte
Lua cheia
De janeiro
Vai nascendo
Urubus no vento
Sobre o manguezal vermelho
Cidade dos caranguejos

O fumo negro da usina
Comendo a cana, comendo.
Areia preta na praia
Sobre a branca faz desenhos
Cais de pedra
Sem conserto
Água lenta
Rio que escorre
Prisioneiro

O menino magro
Vem sorrindo à toa
Tarde boa
Peixe farto
Rede cheia
O menino preto
Desce a correnteza
Pão na mesa
Bom de remo
Vai vivendo.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Uma valsa para Lila Ripoll

Lila Ripoll, em foto que circula por aí sem créditos
Depois de dois meses de silêncio, retorno a este negligenciado blog para compartilhar um poema inédito, que acaba de ser premiado com o segundo lugar no Concurso Lila Ripoll de poesia.

Atualmente na sua 13a. edição, o Prêmio Lila Ripoll foi instituído em 2004 pela Assembleia Legislativa do RS para estimular a criação artística por meio da poesia dedicada às causas sociais e questões de gênero e dar visibilidade a novos talentos literários. O prêmio será entregue em cerimônia pública, na próxima semana, e os poemas selecionados serão publicados em uma separata, com distribuição gratuita.

Lila Ripoll (1905-1967) foi professora, pianista (estudou música, como eu, no que hoje é o Instituto de Artes da UFRGS), jornalista e militante sindical. Gaúcha de Quaraí, colaborou com diversos jornais do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro e foi candidata a deputada pelo PCdoB. Neste domingo, completam-se 113 anos do seu nascimento. Destacando-se no meio literário gaúcho da época, de esmagadora maioria masculina, publicou oito livros de poesia, obra hoje injustamente pouco conhecida. A Editora da UFRGS publicou, em 1987, uma antologia de seus poemas intitulada Ilha Difícil, que não é nada difícil de encontrar em sebos, e que recomendo. A Obra Completa foi publicada em 1998, pelo Instituto Estadual do Livro e Editora Movimento.

Antecipo aqui o poema, rascunhado numa visita a Viena, ano passado, e terminado no verão de 2018, em Bombinhas SC. (Terminado é modo de dizer, já que acabo de fazer uma pequena alteração no antepenúltimo verso. Sempre dá pra melhorar, não é?) Como de costume, sugiro ler em voz alta, prestando atenção no ritmo, formado pelas sílabas tônicas.

Pequena Valsa Vienense


Multiplicar palácios como passatempo
e abarrotá-los de ouro e bugigangas
- produtos do saque, do roubo e do massacre -
e a cada baile reformá-los novamente.

Acaso sem escravos pode haver impérios?

Erguer igrejas para disfarçar o tédio,
afugentar a culpa e engordar os bispos,
sob o pretexto de glorificar um deus
do qual o seu poder supostamente emana.

Acaso houve algum império sem escravos?

Chamar poetas, menestréis e outros bobos
e regalar-lhes as migalhas do banquete,
e encarregá-los de cantar, aos quatro ventos,
a glória eterna das cabeças coroadas.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Para lembrar do Partenon Literário e seus poetas

Clique na imagem para comprar o livro (oferta imperdível,
no site da Editora)

Em 18 de junho de 1868, nascia em Porto Alegre a Sociedade Partenon Literário


E na data em que se comemoram 150 anos da fundação dessa entidade pioneira da cultura rio-grandense, criada por jovens literatos (inclusive mulheres) progressistas e abolicionistas, que no acanhado ambiente da Província de São Pedro criaram uma considerável biblioteca, uma escola noturna e a Revista do Partenon Literário, que publicou, entre outras coisas, os primeiros poemas com temática regional (ou campeira), peço licença aos leitores para abrir uma exceção neste blog de poesia e ao mesmo tempo fazer uma propaganda do meu livrinho Do Partenon à Califórnia (2004) que traça um percurso desde aquela época até o auge dos festivais nativistas, no final do Século XX, para analisar as suas canções.

Versão resumida da minha Dissertação de Mestrado Canto livre? O nativismo gaúcho e os poemas da Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul, defendida no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRGS, o livro já seria motivo de orgulho só por fazer parte da finíssima coleção "Síntese Rio-Grandense", da Editora da UFRGS, ao lado de mestres do calibre de Sandra Pesavento, Sérgio da Costa Franco, Moacyr Flores, Luís Augusto Fischer, entre outras "feras" das Letras e Humanidades.

Mas para não deixar o leitor totalmente a pé (isto é, sem o que realmente interessa), transcrevo aqui um poema de Bernardo Taveira Jr (Rio Grande, 1836 - Pelotas, 1892), um dos colaboradores da Revista do Partenon. Uma curiosidade sobre este poema é que existe uma versão musicada, que aprendi a cantar (e ainda lembro) nos bancos escolares, no Louvai Cantando, coletânea que misturava hinos luteranos e canções populares brasileiras e principalmente gaúchas. A versão que segue, integral, é de As Provincianas, edição de 1986 da Ed. Movimento e Instituto Nacional do Livro.

O tropeiro

Que vida amargada não leva o tropeiro
De dia ou de noite, no frio ou na calma!
Se o nauta nos mares perigos arrosta,
Em terra o tropeiro não cede-lhe a palma.

De estância em estância, cansando cavalos -
Cansando cavalos, o tempo se escoa;
Trabalha incansável, padece mil tratos,
Pensando na tropa que pensa ser boa.

Rodeios, apartes, corridas tremendas,
Rodadas temíveis - são cousas vulgares;
Na marcha da tropa, se o gado dispara,
É quando começam os tristes azares!

Se dá-se algum caso nas horas do dia,
Nem sempre o persegue seu fado inconstante;
Correndo, atacando com jeito e destreza,
Sossega-se a tropa - que marcha arrogante.

Nas rondas, à noite, que triste espetáculo!
Que transes, que angústias não sofre o tropeiro!
Não dorme um instante, não pára um momento,
Se o tempo se muda, se o gado é matreiro.

Mas quando, já tarde, rebrama a tormenta,
Nas asas trazendo funesta ameaça,
Ai! vida escabrosa, cercada de espinhos!
Ai! pobre tropeiro, ai! tormenta, ai! desgraça!

Agita-se o gado aos trovões que ribombam,
E, fero, revolto, mugindo, escarvando,
De chofre dispara - sem rumo e sem norte,
Aos bravos campeiros só trevas deixando!

Mil pragas, mil gritos retumbam nos ares,
Galopam cavalos transpondo negrores!
Cavalos se topam, se curvam tremendo
Ao raio que estala num pego de horrores!

No dia seguinte, passada a refega,
Sozinho no campo, quem vive? - O tropeiro
Com frio, com fome, co'a roupa alagada -
E o calo* só tendo por seu companheiro.

De novo começam trabalhos insanos
Por ínvios caminhos, por campos alheios;
Os dias se passam correndo a cavalo,
De estância em estância, pedindo rodeios.

Após mil esforços, perigos e sustos,
Lá segue, lá marcha o destroço do gado,
Da tropa o que resta, tão linda e bizarra? -
Um pobre tropeiro chorando o seu fado.

(* "cavalo")