Álvaro Santi
Disse um célebre filósofo germânico
que, após os campos de concentração,
já não é possível fazer poesia.
Não obstante a admiração que lhe dedico,
não posso concordar com essa bobagem.
Acaso a poesia é responsável
pelos crimes cometidos por nazistas
e outros bárbaros refinadíssimos?
Se é assim, então as artes todas
em honra aos mortos deveriam silenciar,
deixando-nos completamente entregues
aos torpes fabricantes de notícias?
Suponhamos, ademais, que eu não consiga
deixar de fazer meus humildes versos,
inspirados em crianças que brincam
na praça, ou nas que morrem em conflitos
em Gaza, Ucrânia, Líbia, Brumadinho...
E após tantas bombas do céu despejadas,
e para abafar com a voz seu barulho,
suponhamos que eu achasse necessário
escrevê-los, como quem cultua os mortos
ou lambe feridas em seu próprio corpo,
sem ter assim que dar explicações.
II.
Nesse caso, talvez, eu devesse iniciar
tal como Euclides da Cunha o faria,
descrevendo a paisagem de Santa Maria?
Retratar os primitivos habitantes
dessa terra e seu entorno, as condições
de vida, e como, com o passar dos tempos,
restaram submetidos pelos brancos?
Será preciso ainda ressaltar
que ali existem universidades
onde os jovens do entorno se encontram,
em busca de um futuro promissor;
ou recorrer aos meus conhecimentos
limitados de paleontologia
pra descrever os fósseis da região?
Ou entrar no assunto sem fazer rodeios
e arrolar de forma asséptica as duzentas
e quarenta e duas vítimas do incêndio
(sem contar os seiscentos e tantos feridos)
e por aí parar abruptamente;
fechar os ouvidos a todos os gritos
para não me contagiar de desespero,
evitando as armadilhas da pieguice.
Mas como, ao mesmo tempo, respeitar
a dor daqueles que sobreviveram?
Terei de emudecer em obediência
ao filósofo citado lá no início?
Em busca de mais objetividade,
poderia também consultar os inquéritos,
citar agravos, recursos, doutrinas,
que até hoje resultaram em pouca coisa;
falar dos que desprezam a vida humana,
em prol de mais dinheiro arrecadarem;
ou das autoridades que a justiça
tão raramente leva aos tribunais;
dos infinitos meandros dos processos,
capazes de fazer Moisés desanimar.
Pintar com tinta heroica mães e pais
dos jovens ausentes, em longas vigílias
reunidos, orando ou traçando planos,
percorrendo corredores e avenidas,
plantando flores e colhendo assinaturas.
Se tem razão Adorno, ao rejeitar
a possibilidade de poesia
após o horror tornado realidade,
minha própria vida o que teria sido?
(E o desespero que eu às vezes sinto
será devido à minha incompetência
pra filosofar em alemão?)
Mais fácil seria, professor Adorno,
se eu tivesse fé num deus que os acolhesse
a todos que o descaso e a cobiça
vitimam, sem deixar, contudo, de vingá-los
com rigor, no seu tempo devido.
III.
Melhor faria se, em lugar de Adorno
como guia, eu tomasse um poeta
dessa mesma terra natural;
que, para mim, seria o que Virgílio foi
para Dante, apresentando-lhe o Inferno
de forma didática – salvo que o meu guia,
diferentemente do pagão latino,
lá não pisaria, pois, além de sábio,
é cristão praticante e pessoa piedosa.
(Quem dera houvessem tido os infelizes
jovens guia assim em seu auxílio
para encontrarem do inferno a saída.)
Armindo Trevisan, muito ao contrário,
apontaria o céu, a me mostrar
onde as almas dos jovens repousam, em glória.
(O que, é certo, pode amenizar
a dor dos pais e mães que ainda aguardam
sua volta para casa, desde aquela noite.)
E eu mesmo ficaria consolado,
por algum tempo, junto do meu guia,
mas de antemão sabendo-lhe incapaz
(Pois quem exigiria de um mortal
missão tão acima de suas forças?)
de provar-nos que, depois de tal tragédia,
ainda pode haver – não só poesia,
esse nosso fútil passatempo – mas
esperança, fé, sentido... o próprio Deus.
IV.
É noite. Contemplo a fachada sinistra,
em frente à qual já pode o transeunte
passar tranquilamente sem ouvir
qualquer grito ou inalar fumaça tóxica;
fachada que nem chama a atenção
de quem sai do moderno hipermercado,
levando a calça jeans da promoção
e um bom sanduíche pra comer mais tarde.
Foi bem ali que a sociedade trancafiou,
com ou sem ciência das autoridades,
centenas de jovens, dentre os mais brilhantes
futuros engenheiros e advogados,
possíveis médicas ou empresárias,
em ratoeira mais ou menos lucrativa.
(Depois? Ah, sim, depois vieram, em pencas,
audiências, sindicâncias, leis e normas,
fiscais, manuais, discursos contundentes...)
V.
De repente, parece-me absurdo
que não exista ali um monumento,
uma praça ou, pelo menos, um canteiro
de flores que nos lembrem do cuidado
que é preciso ter com nossos filhos
e os filhos dos outros, de noite e de dia.
Monumento improvável, que desvele
da justiça alternativa imagem:
com a espada tingida de sangue inocente
e erguendo uma balança em que um dos pratos
está repleto de ouro, enquanto o oposto
sustenta pilha imensa de cadáveres.
Mas não! – melhor que sejam corpos vivos,
amantes e amados, repletos de luz,
em vez de bronze ou regular concreto,
já que o único sentido em erigi-lo
será proteger os seres viventes
que deixam suas casas neste exato instante
em busca de um amor, um beijo, alívio
de rir e de dançar e se entregar;
e, enquanto os protegemos, desculpar-nos
por lhes deixar país tão corrompido.
E ainda o imaginado monumento
tão pouco me parece, e tão mesquinho...
Mudar os nomes, é o que eu gostaria,
dessa rua, da cidade e até do estado.
E assim reivindicar aos jovens mortos
lugar cativo em panteão honroso,
substituindo até, quem sabe, alguns
dos heróis de outrora, já tão desgastados,
que seguimos louvando por mero costume.
Mas afinal percebo, em mim caindo,
o quão distante andou o meu delírio,
querendo reescrever da história os livros,
enquanto nem sequer nos autos há sentenças
que possam mitigar os traumas. E, em silêncio,
limito-me a construir este poema.