sábado, 14 de maio de 2016

Política x Poesia?

Foto de Alfonso Abraham, do site do Jornal do Comércio
O Luís Fernando Veríssimo, nas raras ocasiões em se permite publicar seus poemas, costuma fazê-lo sob o título "Poesia numa hora dessas?". Impossível não lembrar disso agora, quando resolvi criar este blog como um espaço exclusivo - sagrado mesmo - para minha poesia, justo nesses tempos tão turbulentos da nossa frágil República. Mas é impossível também que a poesia, aquela que bebe no humano cotidiano, não se deixe contaminar com a política. E oxalá o contrário também aconteça.

Pois é nesse clima que resgato hoje um poema escrito após um grande comício do movimento das Diretas (no dia dessa foto aí, se não me engana a memória), e que faz parte de meu primeiro livro Viagens de uma Caneta por meus Estados de Espírito (Editora da UFRGS, 1992).

Diretas Já

No comício estava eu gritando eu
a multidão e eu a carestia a inflação
a multidão sabia que tu estavas
na multidão e te achei
na multidão um dois três as bandeiras erguidas
quatro cinco mil os punhos erguidos
os gritos erguidos queremos queremos
queremos...
eu deslumbrado ali e de repente
tu desaparecida ali novamente
na multidão
o ilustre senhor deputado falava tudo o que eu já sabia
eu sabia de tudo
e não precisava nada para viver simplesmente
nem do sinal vermelho
dos abrigos de ônibus
das bibliotecas
do relógio da praça que dava também a temperatura
o senhor governador não disse nada da minha tesão
os cartazes não diziam nada da minha tesão
e tu também não sabias
mas também eu desapareci o povo está cansado
perdi minhas palavras
no suor dos corpos reunidos o povo está preparado
e me tornei somente mais um
e todos o povo está unido
o locutor das diretas falava
os senhores oradores todos extasiavam-se
o papel picado descia devagar dos edifícios
eu queria que tudo o mais desaparecesse
para te amar ali mesmo à luz da lua cheia fantástica
filtrada através dos galhos das pitangueiras
que há muito tempo haviam desaparecido

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