Mostrando postagens com marcador Viagens de uma Caneta por meus Estados de Espírito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Viagens de uma Caneta por meus Estados de Espírito. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 12 de junho de 2018

No dia dos namorados, um soneto para os fantasmas

Meus pais, no lançamento de Viagens de uma Caneta
Marcando mais um aniversário do meu primeiro livro, lançado por puro acaso às vésperas do dia dos namorados de 1992, aproveito para quebrar o jejum deste blog, onde não publicava nada desde março.

Não sei se se presta muito bem à efeméride, pois que nele a ironia, como de costume, se mete a disfarçar o romantismo (ou a rir dele). Julgue o leitor.



SONETO VIII


para Lu

Em torno a mim, bailando
vêm as amadas mortas, queridas,
e as esquecidas, ainda agora tentando
em mim prolongar suas vidas.


Por um nada não fomos felizes,
dizem umas, e logo ao meu pescoço
se lançam. Outras, de empinados narizes,
me acusam: "– Já não parece tão moço..."


E dançam, com vontade, as musas
de outrora, com escárnio ou ternura.
E logo a elas se juntam, confusas,


outras tantas lembranças, em tal mistura
de louras, negras, índias e cafuzas,
que já não sei meu coração o que procura.

(24/1/1991)

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Lições do mestre Armindo Trevisan aos 50 anos de poesia

Meu exemplar do primeiro livro de Trevisan,
resgatado de um baú de saldos da Feira do Livro.
Não faz muito eu lembrava aqui dos 25 anos do meu primeiro livro, Viagens de uma Caneta por meus Estados de Espírito. Mas ficou faltando uma parte importante da história.

Na ocasião, o troféu atribuído pelo Prêmio UFRGS de Literatura (que tive de brigar pra receber) levou o nome do poeta e professor Armindo Trevisan. Coube ao Juremir Machado da Silva, em sua coluna no Correio do Povo, lembrar que o Trevisan está completando 50 anos de carreira, iniciada em 1967 com a publicação de A Surpresa de Ser. Livro que, por sua vez, foi contemplado com o prêmio Gonçalves Dias, da União Brasileira de Escritores, tendo como jurados nada menos que Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Cassiano Ricardo. Logo, concluí, utilizando meus conhecimentos matemáticos, quando da minha estreia em livro Trevisan completava 25 anos da sua.

Mas não sendo este um blog de numerologia, vamos adiante. Quis o destino que não nos conhecêssemos naquele momento. Ele não pode vir ao meu lançamento, por se encontrar em viagem, fora do país. Isso só veio a acontecer cinco anos mais tarde, quando me matriculei no curso de extensão que ele ministrou na PUC-RS, A Poesia como Conhecimento e Experiência. Naquele momento, eu preparava meu terceiro livro, para submetê-los ao Instituto Estadual do Livro, que viria a publicá-lo no ano seguinte, sob o título de Dança das Palavras. Trevisan generosamente leu os originais, fazendo críticas muito bem-vindas. Sem contar o curso em si mesmo, em que tratava, com entusiasmo contagiante, de conteúdos de ordem prática sobre poesia (que não se encontravam no Mestrado em Letras, que eu cursava na época), muito úteis.

Talvez a mais importante das lições aprendidas naqueles dias, e incorporada ao que escrevi deste então, foi a de ler os poemas em voz alta. Até então, eu pensava o metro e a rima dos versos muito visualmente. Tímido, nunca fui afeito à declamação. Mas desde então, o ritmo passou a ter uma importância cada vez maior até hoje, quando muitas vezes é o ritmo de uma frase qualquer que me chama a atenção e, ao ser anotado, transforma-se no primeiro verso de alguma coisa que ainda não sei o que será.

Para homenagear o mestre, vai aqui um singelo poema escrito naqueles dias, como um exercício  proposto por ele. O último verso, de Fernando Pessoa, é tomado como tema do poema, que foi selecionado para uma antologia no concurso Via Verso, da Prefeitura de Ourinhos SP, ainda naquele ano; e incluído depois em Dança das Palavras.

GLOSANDO PESSOA 

Mal percebo o sentimento
Mais adorável do mundo,
E ele se vai, após curto
E belo espaço de tempo.

E eis que me concentro tanto
No breve instante perdido,
Que finalmente me canso,
E cansado então desisto.

Bem depois, quando nem penso
Em coisa nenhuma, sinto
Tornar, pleno, o momento:
Sentir é estar distraído.

sábado, 23 de setembro de 2017

Um quarto de século e um troféu barato

A edição do livro foi resultado do concurso realizado no ano
anterior.
Nesses meses em que o blog deu uma pausa, pelo menos uma data marcante acabou passando em branco: os 25 anos do lançamento do meu primeiro livro, Viagens de uma Caneta por meus Estados de Espírito, pela Editora da UFRGS. Ano passado eu já tinha evocado este dia - 11 de junho de 1992 - numa postagem, onde você pode ver a capa do livro.

O famigerado troféu

O troféu, reproduzido ao lado, foi objeto de uma polêmica desagradável e meio risível. Como constasse no regulamento do prêmio, e já tinham se passado alguns meses sem notícia dele, escrevi uma carta nada diplomática ao então Pró-Reitor de Extensão da UFRGS, cobrando. Em resposta, ele me chamou ao seu gabinete, onde revelou-se indignado com a cobrança. Não guardei cópia da carta, logo é difícil dizer em que medida os termos da carta possam lhe dar razão, mas é claro que não tive a intenção de ofendê-lo pessoalmente (eu sequer o conhecia). Era um problema institucional. Segundo me explicou, a confecção do troféu era responsabilidade do Instituto de Artes, que deveria ter promovido seu próprio concurso para escolhê-lo, o que não aconteceu por algum motivo. Não era culpa dele, e nem problema meu. A "solução" que encontrou, para eu parar de lhe encher o saco, foi mandar fazer essa coisinha aí na loja da esquina. O que para mim pouco importa, e guardo com muito orgulho, evidentemente.

Segue um dos poemas que estão lá, meu primeiríssimo soneto.


Soneto I

Uma desgraça espreita no meu dia, e morde
as pontas de meus dedos, entre os lençóis brancos:
saudades de um tempo de humor e de arrancos,
que some na poeira, atrás de um velho Ford.

Lá se foram, dias da feliz ignorância
que embebe as flechas da ironia juvenil:
do mundo adulto me contemplam mais de mil
olhos frios, que receio, mesmo à distância.

Crescer, tento explicar a mim mesmo, é esquecer de
tudo que já fui, ainda que somente em bruma:
pintar-me de cinza, para ocultar o verde

rosto que da infância trago, sem ruga alguma,
(quem sabe, logo, um filho nascerá que o herde)
e decretar-me o início da velhice, em suma.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Rondeau n. 1 - uma experiência visual

Lá pelo início dos anos 1990, eu terminava de escrever os poemas que viriam a compor meu primeiro livro, Viagens de uma Caneta por meus Estados de Espírito (que saiu em 1992). Minhas tentativas de escrita poética seguiam no rumo de uma crescente complexificação formal, intensificando o uso de rimas e assonâncias. O poema que apresento hoje marca o que considero o auge dessa experimentação, e ao mesmo tempo a chegada numa espécie de beco sem saída, já que depois de escrevê-lo ficou claro que eu tinha de buscar outros caminhos. (Vejam que as rimas não se encontram apenas no final dos versos, mas em qualquer ponto deles. Além disso, extrapolam o limite das estrofes, isto é, retornam ao longo do poema nas estrofes seguintes. São recursos pouco comuns) Agora, graças ao auxílio luxuoso do Marcel Goulart (que sabe escrever outro tipo de "versos", sobre os quais sou ignorante: aqueles que os computadores lêem), vocês poderão perceber as múltiplas correspondências sonoras entre os versos (inclusive de diferentes estrofes), com um simples movimento do mouse. Bom proveito.
  • O
    tempo
    passa,
    as
    horas
    voam...
  • ou
    será
    o
    tempo
    pirraça
  • dos
    sinos
    loucos
    que
    soam
  • em
    teus
    abismos
    -
    aqueles
  • que
    o
    poeta
    canta?
    Onde,
    eles?
  • Em
    vão
    procuras...
    Não
    vês?
  • São
    teus
    demônios
    que
    crescem,
  • enquanto
    desce
    a
    mais
    escura
  • noite,
    nos
    abismos
    do
    poeta.
  • O
    tempo
    passa,
    as
    horas
    voam...
  • ou
    será
    o
    tempo
    desgraça
  • que
    uns
    poucos
    relógios
    amontoam
  • sob
    os
    véus
    que
    ainda
    temos,
  • mesmo
    quando
    os
    escondemos
  • para
    em
    vão
    detê-los?...
    Não
    crês?
  • São
    teus
    hormônios
    que
    procuram
  • a
    mais
    pura
    forma
    de
    fazê-lo,
  • à
    noite.
    Ainda
    não
    esta...
    -
    Mas
    quando?!
  • O
    tempo
    passa,
    as
    horas
    voam...
  • ou
    será
    o
    tempo
    couraça,
  • para
    que
    roucos
    gemidos
    não
    doam
  • mais
    em
    Deus,
    ou
    em
    nós,
    tolos?
  • Se
    não
    há
    na
    vida
    consolos,
  • e
    em
    vão
    tentamos
    ser
    fortes,
    não
    dês
  • atenção
    a
    teus
    neurônios
    cansados:
  • mais
    ousado
    é
    encontrar
    a
    morte
  • à
    noite,
    a
    sós,
    numa
    bala
    perdida.
  • O
    tempo
    passa,
    as
    horas
    voam...
  • ou
    será
    o
    tempo
    trapaça,
  • e
    a
    noite
    mais
    do
    que...
    fumaça?

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Viajando no tempo e na cidade

O Viaduto Otávio Rocha, em Porto Alegre, fotografado em
1933 por Jacob Prudêncio Herrmann.
Aproveitando a passagem do Dia Mundial do Urbanismo, no último dia 8, publico hoje esse singelo e antigo poema. Uma primeira versão, sem título, saiu no meu livro de estreia, Viagens de uma Caneta por meus Estados de Espírito (1992), e cheguei a musicá-lo, mas o resultado não ficou lá essas coisas. Recentemente, dei uma mexida nos metros e rimas, resultando no que está aí.

Foi inspirada por uma caminhada, daquelas boas, sem rumo e sem preocupações, pelo centro de Porto Alegre, nos longínquos anos de 1980, na companhia do amigo Rômulo Giralt. (Não posso garantir, mas é possível que estivéssemos sob efeito de alguma substância, mas isso é irrelevante.)

O Rômulo (que por acaso está de aniversário por estes dias, merecendo portanto a homenagem) viria mais tarde a se tornar arquiteto e professor universitário, mas já sabia muito mais sobre a história da sua cidade natal do que eu. Por esse motivo, o poema do livro está dedicado a ele.

Também utilizei os primeiros quatro versos (com uma pequena variação no terceiro) como um texto incidental falado, na introdução da canção (dele e do Mário Humberto) "Andarilho Noturno", no meu CD Trem da Utopia (2011). Clique aqui para ouvir.

Passeio n° 5

Caminhamos na chuva rala
Nossos sapatos deixam marcas
Na calçada, por entre os prédios
Que teimamos em chamar belos

Tão jovens na idade, os corações velhos...
Que vai ser de nós, quando nossos netos
Sentirem saudades, não de antigas casas,
Não da vida calma, mas desse concreto?

sábado, 15 de outubro de 2016

A infância e depois

Nesta Semana da Criança não tive tempo de publicar aqui, andei muito ocupado... brincando : )
Mas me redimo em tempo: depois de castigar o leitor com dois sonetos seguidos, segue esse poeminha antigo e singelo, que nem título tem. Está em Viagens de uma Caneta por meus Estados de Espírito. (Editora da UFRGS, 1992)

Uma vez criança,
fugirás de um seio,
pela porta da frente da casa.
E virás pro mundo.

Uma vez na estrada,
descobertas: só olhar pra frente
e não querer
além do horizonte.

Uma vez sozinho,
voltarás teus olhos,
procurando o berço de tudo,
e não verás além dos próprios...

passos.

sábado, 3 de setembro de 2016

Chega Primavera

Enquanto isso, no jardim aqui de casa...
Batendo água lá fora, a temperatura porém mais amena, e eis que entramos em setembro. Ipês floridos pelas ruas. Nada mais previsível que eu estampar aqui um dos meus poemas primaveris, tema que eu revisito periodicamente. Não tem como escapar, morando nos Subtrópicos. Este está no primeiro livro, Viagens de uma Caneta por meus Estados de Espírito (1992).

Pé-de-Vento


Ventos da primavera
Varrendo a poeira das ruas
Para dentro dos meus olhos
Limpando a cidade os telhados
Erguendo saias distraídas
Poeira e lágrimas em meus olhos
Enchendo de ar meu peito
De sonhos e aromas a cidade
Os telhados e as saias das mulheres
Que fazem sonhar meus olhos
Lambendo o mar furiosos ventos
Da primavera brindando
brincando de desmanchar nuvens
Sonhos telhados e cidades
Nos olhos das mulheres
Varrendo a cidade erguendo saias
Suspirando olhando o mar
Furiosas lambendo lágrimas
Silenciosas correndo dos telhados
Para dentro de meus olhos

sábado, 11 de junho de 2016

Há 24 anos, vinha ao mundo meu primeiro "filho"




Capa de Carla Luzzato
Foi exatamente num dia 11 de junho, 24 anos atrás, que eu entrei de vez (ou fui jogado) no mundo das letras. Depois de ter alguns poemas classificados em concursos e publicados em antologias aqui e ali, saía meu primeiro livro individual.

A publicação foi consequência do Prêmio UFRGS de Literatura/Troféu Armindo Trevisan, concurso para escritores universitários gaúchos, lançado no ano anterior numa promoção conjunta entre a Pró-Reitoria de Extensão e o Instituto de Letras. O júri tinha Élvio Funck, Maria Luíza.Berwanger e Luís Augusto Fischer (a quem conheci então e que escreveu a apresentação do livro).

O livro saiu pela Editora da UFRGS, numa tiragem de 500 exemplares, já esgotada. Segue o poema de abertura. (Quem quiser mais, pode ler a íntegra do livro no meu site.)
Amigos no lançamento, no Campus Central da
UFRGS: da E para D, em pé, Karl Wüst, eu, Rômulo Giralt,
Renan Giralt,  Ivan Maraschin; sentados, Zé Barcellos e
Jorge Welzel. (Faltou o Zeca Oliveira, autor desta foto e da
outra, na contracapa do livro.)


Profissão


Me escrevo torto,
endireitando alegre as linhas
tortas do que trago:
saber e saudade.

Me explico um pouco
tenso, por escrito,
não sei se honesto
ou teatral-pálido.

Me canto suave,
cercado de ruas e pores-de-sol,
molhado de pranto 
até os ossos.

Me lanço ao mundo,
o rosto ao vento, 
ou tropeçando em versos,
aflito: vivo!

sábado, 14 de maio de 2016

Política x Poesia?

Foto de Alfonso Abraham, do site do Jornal do Comércio
O Luís Fernando Veríssimo, nas raras ocasiões em se permite publicar seus poemas, costuma fazê-lo sob o título "Poesia numa hora dessas?". Impossível não lembrar disso agora, quando resolvi criar este blog como um espaço exclusivo - sagrado mesmo - para minha poesia, justo nesses tempos tão turbulentos da nossa frágil República. Mas é impossível também que a poesia, aquela que bebe no humano cotidiano, não se deixe contaminar com a política. E oxalá o contrário também aconteça.

Pois é nesse clima que resgato hoje um poema escrito após um grande comício do movimento das Diretas (no dia dessa foto aí, se não me engana a memória), e que faz parte de meu primeiro livro Viagens de uma Caneta por meus Estados de Espírito (Editora da UFRGS, 1992).

Diretas Já

No comício estava eu gritando eu
a multidão e eu a carestia a inflação
a multidão sabia que tu estavas
na multidão e te achei
na multidão um dois três as bandeiras erguidas
quatro cinco mil os punhos erguidos
os gritos erguidos queremos queremos
queremos...
eu deslumbrado ali e de repente
tu desaparecida ali novamente
na multidão
o ilustre senhor deputado falava tudo o que eu já sabia
eu sabia de tudo
e não precisava nada para viver simplesmente
nem do sinal vermelho
dos abrigos de ônibus
das bibliotecas
do relógio da praça que dava também a temperatura
o senhor governador não disse nada da minha tesão
os cartazes não diziam nada da minha tesão
e tu também não sabias
mas também eu desapareci o povo está cansado
perdi minhas palavras
no suor dos corpos reunidos o povo está preparado
e me tornei somente mais um
e todos o povo está unido
o locutor das diretas falava
os senhores oradores todos extasiavam-se
o papel picado descia devagar dos edifícios
eu queria que tudo o mais desaparecesse
para te amar ali mesmo à luz da lua cheia fantástica
filtrada através dos galhos das pitangueiras
que há muito tempo haviam desaparecido