quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Mais um soneto... premiado



Recebo com alegria a notícia de que meu Soneto 59 recebeu menção honrosa na 15º edição do Prêmio Nacional de Literatura dos Clubes, promovido pelo Sindicato de Clubes de São Paulo (Sindiclubes), Academia Paulista de Letras e Federação Nacional de Clubes (Fenaclubes).

O resultado foi anunciado ontem.

(Leia o e-book com as obras premiadas desta edição.)

Eis o poema:




Soneto 59


Saio a caminhar pelo que um dia 

pretendeu tornar-se uma cidade         

de europeia estirpe e fidalguia   

– sonho, já se vê, inalcançável.  

  

Tudo ou quase tudo me incomoda:

lixo que transborda dos containers;

casas que abrigaram vidas, mortas;

máquinas de lata, onipresentes...

 

De vez em quando, alguma flor, criança

ou passarinho arrancam-me um sorriso;

algum olhar, de outro traz lembrança.

  

Encerro com uma dose de otimismo:

apesar das enchentes que sofremos,

por ora ainda não houve bombardeios.



segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

O Monumento, um poema sobre a tragédia da Boate Kiss

O Monumento

Álvaro Santi


“Escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro”
T. Adorno, 1949
 
I.
Disse um célebre filósofo germânico
que, após os campos de concentração,
já não é possível fazer poesia.
Não obstante a admiração que lhe dedico,
não posso concordar com essa bobagem.
 
Acaso a poesia é responsável
pelos crimes cometidos por nazistas
e outros bárbaros refinadíssimos?
Se é assim, então as artes todas
em honra aos mortos deveriam silenciar,
deixando-nos completamente entregues
aos torpes fabricantes de notícias?
 
Suponhamos, ademais, que eu não consiga
deixar de fazer meus humildes versos,
inspirados em crianças que brincam
na praça, ou nas que morrem em conflitos
em Gaza, Ucrânia, Líbia, Brumadinho...
 
E após tantas bombas do céu despejadas,
e para abafar com a voz seu barulho,
suponhamos que eu achasse necessário
escrevê-los, como quem cultua os mortos
ou lambe feridas em seu próprio corpo,
sem ter assim que dar explicações.
 
II.
Nesse caso, talvez, eu devesse iniciar
tal como Euclides da Cunha o faria,
descrevendo a paisagem de Santa Maria?
Retratar os primitivos habitantes
dessa terra e seu entorno, as condições
de vida, e como, com o passar dos tempos,
restaram submetidos pelos brancos?
 
Será preciso ainda ressaltar
que ali existem universidades
onde os jovens do entorno se encontram,
em busca de um futuro promissor;
ou recorrer aos meus conhecimentos
limitados de paleontologia
pra descrever os fósseis da região?
 
Ou entrar no assunto sem fazer rodeios
e arrolar de forma asséptica as duzentas
e quarenta e duas vítimas do incêndio
(sem contar os seiscentos e tantos feridos)
e por aí parar abruptamente;
fechar os ouvidos a todos os gritos
para não me contagiar de desespero,
evitando as armadilhas da pieguice.
 
Mas como, ao mesmo tempo, respeitar
a dor daqueles que sobreviveram?
Terei de emudecer em obediência
ao filósofo citado lá no início?
 
Em busca de mais objetividade,
poderia também consultar os inquéritos,
citar agravos, recursos, doutrinas,
que até hoje resultaram em pouca coisa;
falar dos que desprezam a vida humana,
em prol de mais dinheiro arrecadarem;
ou das autoridades que a justiça
tão raramente leva aos tribunais;
dos infinitos meandros dos processos,
capazes de fazer Moisés desanimar.
 
Pintar com tinta heroica mães e pais
dos jovens ausentes, em longas vigílias
reunidos, orando ou traçando planos,
percorrendo corredores e avenidas,
plantando flores e colhendo assinaturas.
 
Se tem razão Adorno, ao rejeitar
a possibilidade de poesia
após o horror tornado realidade,
minha própria vida o que teria sido?
(E o desespero que eu às vezes sinto
será devido à minha incompetência
pra filosofar em alemão?)
 
Mais fácil seria, professor Adorno,
se eu tivesse fé num deus que os acolhesse
a todos que o descaso e a cobiça
vitimam, sem deixar, contudo, de vingá-los
com rigor, no seu tempo devido.
 
III.
É noite. Contemplo a fachada sinistra,
em frente à qual já pode o transeunte
passar tranquilamente sem ouvir
qualquer grito ou inalar fumaça tóxica;
fachada que nem chama a atenção
de quem sai do moderno hipermercado,
levando a calça jeans da promoção
e um bom sanduíche pra comer mais tarde.
 
Foi bem ali que a sociedade trancafiou,
com ou sem ciência das autoridades,
centenas de jovens, dentre os mais brilhantes
futuros engenheiros e advogados,
possíveis médicas ou empresárias,
em ratoeira mais ou menos lucrativa.
 
(Depois? Ah, sim, depois vieram, em pencas,
audiências, sindicâncias, leis e normas,
fiscais, manuais, discursos contundentes...)
 
IV.
De repente, parece-me absurdo
que não exista ali um monumento,
uma praça ou, pelo menos, um canteiro
de flores que nos lembrem do cuidado
que é preciso ter com nossos filhos
e os filhos dos outros, de noite e de dia.
 
Monumento improvável, que desvele
da justiça alternativa imagem:
com a espada tingida de sangue inocente
e erguendo uma balança em que um dos pratos
está repleto de ouro, enquanto o oposto
sustenta pilha imensa de cadáveres.
 
Mas não! – melhor que sejam corpos vivos,
amantes e amados, repletos de luz,
em vez de bronze ou regular concreto,
já que o único sentido em erigi-lo
será proteger os seres viventes
que deixam suas casas neste exato instante
em busca de um amor, um beijo, alívio
de rir e de dançar e se entregar;
e, enquanto os protegemos, desculpar-nos
por lhes deixar país tão corrompido.
 
E ainda o imaginado monumento
tão pouco me parece, e tão mesquinho...
Mudar os nomes, é o que eu gostaria,
dessa rua, da cidade e até do estado.
E assim reivindicar aos jovens mortos
lugar cativo em panteão honroso,
substituindo até, quem sabe, alguns
dos heróis de outrora, já tão desgastados,
que seguimos louvando por mero costume.
 
Mas afinal percebo, em mim caindo,
o quão distante andou o meu delírio,
querendo reescrever da história os livros,
enquanto nem sequer nos autos há sentenças
que possam mitigar os traumas. E, em silêncio,
limito-me a construir este poema.
 
27/1/2025
12º aniversário do incêndio da Boate Kiss
80° aniversário da libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho
[texto editado em 14/10/2025]

domingo, 31 de dezembro de 2023

Um poema de ano novo... ou algo assim


A julgar pelo abandono em que se encontra este blog, ninguém diria quão intenso foi o ano do seu autor. Teve lançamento de livro novo e um inédito patronato da feira do livro de Lajeado, que me deram muitas alegrias. Tem outro livro a caminho, já revisado e prestes a ir para a impressão; e um terceiro bem adiantado na escrita, que deve sair em 2025.

Mas para não ficar o ano inteiro de 2023 sem postar nada, deixo aqui de última hora essa mensagem (?) de ano novo, escrita nos primeiros dias de 2022 e que está em Os Tons de Tudo. É sobre a necessidade que temos de olhar para trás e fazer balanços, para podermos melhorar nos anos que vem pela frente.

Um ótimo 2024 a tod@s.



Soneto 44 (Do ano novo)


Enquanto eu tomo o resto do espumante

(bebida adocicada que em geral

refugo e só nas festas de Natal

e Réveillon tolero, consoante

 

é tradição no mundo ocidental),

dedico-me a escrever uma mensagem

que, em vez de desejar felicidades

no ano que inicia a quem lerá,

 

nos anteriores fixa sua lente

­­(nos mais remotos e nos mais recentes),

em busca de um balanço, sempre mais

inútil quanto mais pareça urgente.

 

De resto, é tradição também das gentes

fazer balanços; e escrever, meu mal.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Porto Alegre, 250


... e às vésperas de terminar 2022, nessa semana entre o Natal e o Ano Novo, em que o tempo parece suspenso, depois de muitas homenagens prestadas à cidade que completou seus 250 anos, calhou de eu finalizar agorinha um poema iniciado justamente na data festiva, 26 de março. Há 9 meses, portanto. Eis o recém-nascido:

I.

Nunca pude imaginar

o instante em que esta cidade

terá brotado de um ventre

suficientemente grande.

 

Antes a vejo incompleta,

construindo e destruindo

a si mesma, em sucessivas

ondas de modismos fúteis.

 

A joia arquitetônica de ontem,                    

convertida em obstáculo ao progresso,       

é condenada a desaparecer.                      

 

II.

Mesmo assim, sem muita fé,

tentei fazer minha parte

pra marcar a efeméride.

 

Cevei um mate,

cuidei dos gatos

e passarinhos

do meu amigo.

 

Depois do almoço,

subi ladeiras

e olhei as casas

dos milionários

e miseráveis.

 

Na sinaleira,

desviei o olhar

dos malabares

e mandolates.


III. 

Pelo rádio, ouvi as vozes de sempre,

com seus intermináveis comentários,

entre anúncios dos donos da cidade.

 

Estive conferindo a nova orla

- aquela que só mesmo o Jaime Lerner

seria capaz de ter desenhado.

 

Notei que o Minuano também veio

encrespar o Guaíba, mas de leve,

como quem sabe que é dia de festa.

 

IV.

Não importa que eu fique ou vá embora:

permanecerei.

 

Devia haver, contudo,

(não sei se é o melhor nome)

um pós-aniversário,

pra podermos pensar

sobre o que, afinal,

comemoramos. 


(Poema editado em 28/12/2022)

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Do Brasil de 2022, um poema para Walter Benjamin

 Recebo com alegria a notícia de que mais um poema meu foi selecionado para publicação em antologia. Desta vez, trata-se do concurso promovido pelo Programa de Educação Tutorial em Letras da Universidade Federal de Alfenas MG (Unifal). Na presente edição, o concurso teve mais de 400 poemas inscritos.

Como de costume, publico aqui o poema (numa versão ligeiramente modificada em relação à que enviei para o concurso, em abril) e comento sua gênese atípica. Ele nasceu a partir de anotações feitas durante o 1º Congresso Internacional Walter Benjamin: Barbárie e memória ética, realizado na PUC-RS em setembro de 2018. Embora eu só tenha retomado essas notas com o propósito de transformá-las em poema mais de um ano depois de assistir à palestra da professora Alexia Bretas (UFABC), cheguei a aproveitar expressões e imagens utilizadas por ela. Menos do que configuraria um plágio, espero; porém mais do que apenas uma inspiração, e suficiente em todo o caso para registrar o fato e agradecer a ela (que não conheço pessoalmente).

Embora o tema desta edição do concurso fosse "lembranças" - o passado, portanto - o leitor informado irá perceber que o momento da publicação faz o poema soar terrivelmente atual. 

O título é uma expressão latina, cujo significado você pode pesquisar no Google. 


Memento mori 

Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. (W. Benjamin, 1940)

Ao Sul do Sul, virou rotina

a desgraça: há sempre o luto

e os que sequer são dele dignos.


Há sempre um cadáver em cena:

casas de osso, carne, nervos;

corpos de pedra, cal e telhas.


Na história interrompida,

já não sabemos lembrar,

nem podemos esquecer.


(Ouvi dizer que os Ianomâmi

nos chamam, apropriadamente,

“povo do esquecimento”.)


Se o inimigo vencer,

vai reescrever o passado

e nem os mortos estarão a salvo.


Seu plano é plantar desertos,

estéreis de coisas e ideias

o solo assim como as mentes.


Mas os vivos, estes podem

                ainda escolher.



O livro completo com os 202 poemas selecionados pelo concurso pode ser lido aqui.

Na ilustração, obra do genial pintor Hyeronimus Bosch (século XVI)


terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Poema "Preso-Livre" premiado em concurso nacional

O Poema "Preso-Livre", escrito por Álvaro Santi em 2020 durante a quarentena e que já havia sido finalista do Festipoema de Pindamonhangaba (leia o poema neste link), foi classificado em terceiro lugar no Prêmio Nacional de Literatura dos Clubes - VI Edição.
Em 2018, o autor teve seu poema "Manguezal" agraciado com menção honrosa no mesmo concurso.
Realizado pelo Sindi Clube em parceria literária com a FENACLUBES e APL - Academia Paulista de Letras, o prêmio tem o objetivo de promover e incentivar a literatura nas agremiações de todo o Brasil.
Nesta edição, 40 clubes de 18 cidades participaram inscrevendo 31 poesias, 35 crônicas e 48 contos. Um total de 114 obras foram avaliadas pela comissão julgadora, composta por Joaquim Maria Botelho – membro da UBE – União Brasileira de Escritores (relator); Mafra Carbonieri – membro da Academia Paulista de Letras e Marcelo Nocelli – escritor e editor.
A premiação, no valor de R$ 1.500,00 (um mil e quinhentos reais), R$ 1.000,00 (um mil reais) e R$ 500,00 (quinhentos reais), respectivamente, é entregue ao primeiro, o segundo e o terceiro colocados de cada categoria.
A comissão julgadora relatou que a temática das obras da 6ª edição apresentou um traço comum: uma tendência reflexiva dos tempos incertos que vivemos. “Cada autor, a seu modo, nos convida a pensar. E é pensando que mudamos o mundo”, finaliza a comissão em seu detalhado parecer.
Confira a seguir as obras vendedoras e o parecer dos jurados!
PRÊMIO NACIONAL DE LITERATURA DOS CLUBES
POESIA, CRÔNICA E CONTO | 6ª EDIÇÃO | 2021
Obras vencedoras / poesia, crônica e conto
POESIA
Primeiro lugar | Magnos A. B. Castanheira | “Paisagem em desespero” | Clube Esperia (São Paulo – SP)
Segundo lugar | Maria Antonieta Fernandes de Souza | “Nu frontal” | Club Athletico Paulistano (São Paulo – SP)
Terceiro lugar | Álvaro Santi | “Preso / livre” | Grêmio Náutico União (Porto Alegre – RS)
Menções honrosas:
1– Ivani Soares | “Ressignificações” | Clube Recreativo Dores (Santa Maria – RS)
2– Luiz Carlos Ladeia | “Palavras sem nexo” | Clube Esportivo da Penha (São Paulo – SP)
3– Luiz Carlos de Moura Azevedo | “Quero pedras” | Sociedade Harmonia de Tênis (São Paulo – SP)
CRÔNICA
Primeiro lugar | Beatriz Varani Eleutério | “As histórias de cada um” | Círculo Militar de Campinas (SP)
Segundo lugar | Ricardo Lahud | “Espírito de sereia” | Club Athletico Paulistano (São Paulo – SP)
Terceiro lugar | Thamara Cristhine Santos de Assis | “Lições de elevador” | Clube Dom Pedro II (Conselheiro Lafaiete – MG)
Menções honrosas:
1– Eurico Cabral de Oliveira Filho | “Cavalo marinho” | Anhembi Tênis Clube (São Paulo – SP)
2– Carlos Augusto de Assis | “Começo” | Clube Esportivo Helvetia (São Paulo – SP)
3– Maria Fernanda Mendes Pereira | “O que a luz nos esconde na escuridão?” | Club Athletico Paulistano (São Paulo – SP)
CONTO
Primeiro lugar | Maria Helena Figueiredo Vieira | “O quarto de dentro” | Club Athletico Paulistano (São Paulo – SP)
Segundo lugar | Jeanette Rozsas | “Jane Austen, o vampiro e um caso de amor” | Club Athletico Paulistano (São Paulo – SP)
Terceiro lugar | Maria Célia Nunes Borges de Lima | “Amor proibido” | Minas Tênis Clube (Belo Horizonte – MG)
Menções honrosas:
1– Carla Figueiredo Vieira | “O grande abismo” | Club Athletico Paulistano (São Paulo – SP)
2– Jacqueline Harsche Rodrigues | “O que habita rachaduras” | Associação Desportiva Centro Olímpico (São Paulo – SP)
3– Danielle Martins Cardoso | “Abayomi” | Club Athletico Paulistano (São Paulo – SP)
Fonte: Site do  Sindi Clube (sindiclubesp.com.br) 

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Meu poema sobe ao palco em Pindamonhangaba

Na próxima quinta-feira, dia 25 de novembro (também conhecida como depois de amanhã), a partir das 19 horas, acontece o XV Festipoema. Promovido pela prefeitura e pela academia de letras da cidade paulista de Pindamonhangaba,  esse festival premia anualmente poemas inéditos (de todo o país) e declamadores locais, que sobem ao palco para defender os poemas selecionados. Nesta edição, tive a honra de ser um dos 15 poetas selecionados, e estarei representando o Rio Grande do Sul.

"Estarei", claro, é modo de dizer. Meu poema "Preso-Livre" é que vai estar sendo declamado por lá. Resultado de um desafio proposto pela Fundação Iberê Camargo, em torno da situação de isolamento social, foi escrito em junho do ano passado.

O XV Festipoema terá transmissão ao vivo pelo canal da Prefeitura de Pindamonhangaba no Youtube. Mas os leitores do blog podem ler aqui o poema, em primeiríssima mão. 

Preso - Livre 

Preso e protegido
(por enquanto, ao menos)
nesse apartamento:
pássaro cativo,
morrendo de medo
de sair do ninho.

Preso ao seu emprego,
dentro de uma cela
ou num casamento.
Preso na miséria.

Preso a pensamentos
que nunca dão trégua;
preso (não tem jeito) 
à ilusão das telas.

Preso às consequências
de suas escolhas;
por grave delito;
a um amor antigo.

Preso à Natureza,
ao pecado, ao vício,
a um corpo finito,
a uma vida pouca.

* * *

E livre, apesar de
todos os entraves:
alma impenetrável
àqueles olhares
prontos a julgarem
o que não lhes cabe.

Espírito livre,
não enxerga o mal,
aberto aos convites
que a vida lhe faz.
 
Livre qual o cometa,
no espaço infinito,
zomba dos planetas,
em seus rumos fixos.

Livre, de repente,
qual lagarta presa
em roupão de seda,
pendente de um fio,
que, sem prévio aviso,
numa tarde quente,
vira borboleta
e ganha o vazio.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Operita Violoncello: a poesia sobe ao palco

Na foto de Cláudio Etges, da esq. p/dir: Pâmela Mânica, Raul Voges, 
Ângela Diel, Daniel Germano e Janaína Nocchi.

Ainda maravilhado, mais de um mês após a estreia da Operita Violoncello, eu finalmente registro o acontecimento neste blog. Foi um lindo espetáculo, encenado com grande apuro técnico por uma equipe de primeira, da qual tive a felicidade de participar como libretista. 

O evento marcou a reabertura do Teatro São Pedro para espetáculos de produção privada (após dois eventos realizados pela própria administração). A lotação foi limitada a 1/3 da capacidade total.

Essa história começou lá no final de 2018, quando o diretor Décio Antunes - que havia lido meu poema dramático A aposta dos deuses (publicado em livro em 2007) me indicou para um projeto do compositor, violinista e regente Arthur Barboza e da cantora e produtora Ângela Diel. A partir de uma ideia central do Arthur e de alguns poemas de Florbela Espanca que ele já começara a musicar, fui encarregado de desenvolver um enredo. No jargão operístico, um "libreto", que vem a ser simplesmente o texto, a dramaturgia da ópera. Ou opereta, no caso, porque dura menos de uma hora, num único ato. A música é executada ao vivo, por uma pequena orquestra de violoncelos.

O argumento gira em torno de um triângulo amoroso entre a célebre violoncelista Maria (a cantora Ângela Diel); o galante Juan (o cantor Daniel Germano); e um violoncelo ciumento que adquire vida (o bailarino e coreógrafo Raul Voges). Completam o elenco duas bailarinas, que representam alter egos de Maria (Janaína Nocchi e Pâmela Mânica).

Em agosto de 2019, depois de algumas idas e vindas entre mim e o Arthur (com contribuições da diretora Jaqueline Pinzón, incorporada à equipe), o texto foi dado como pronto. O grupo foi crescendo, os ensaios começaram e a estreia foi marcada para abril de 2020, no Teatro São Pedro. Então veio aquilo que vocês sabem. Daí pra frente foi uma larga espera, que só acabou dia 13 de julho de 2021. Foram só quatro apresentações, por enquanto, mas certamente haverá outras.

Enquanto isso, para quem não pode assistir, adianto a letra de uma das canções, um dueto entre os personagens Juan e Maria. De todo o libreto, essa é a única canção da qual eu já tinha escrito uma versão, que após adaptada acabou servindo bem a propósito para o enredo. Arthur a transformou em um tango, e Jaqueline a colocou numa cena de baile.

JUAN
Há um instante na paixão
Quando ainda não falei
E o que vou falar, nem sei
Só imagino o sim ou o não
 
MARIA
Há na paixão um instante
Que vai passar sem demora
Que pode levar meia hora
Que nunca dura o bastante
 
JUAN
Há um instante na paixão
- Quem sabe o melhor de todos?
O presente cheira a novo
E o futuro é multidão
 
MARIA
Há na paixão um momento
Que é gostoso prolongar
Que vem antes de se dar
Aquele passo primeiro...
 
JUAN E MARIA
... Rumo ao coração do outro
Antes do primeiro desencontro.
O melhor do amor é essa vertigem
Não saber ao certo em que vai dar
Por mais que eu imagine
O prazer maior é imaginar




segunda-feira, 9 de agosto de 2021

A morte do tirano (poema inédito)

Semana passada, a Biblioteca Pública Castro Alves, de Bento Gonçalves, divulgou o resultado de seu primeiro concurso de poesia. Foram 765 inscrições, vindas de todos os estados brasileiros, nas categorias infantil, juvenil e adulto.

Meu poema "A morte do tirano" foi um dos que receberam menção honrosa. Todos os textos premiados estão reunidos num e-book.

Para os leitores do blog, adianto aqui o poema, até então inédito. Ele começou a ser esboçado em novembro de 2015, recebendo cortes e acréscimos em 2016, 2018 e 2020, até chegar à versão final (por enquanto), enviada ao concurso em abril deste ano.

A Morte do Tirano

Quando morreu o Tirano,
pode ser que alguém duvide,
mas eu lhes digo e garanto:
muita gente ficou triste.
 
Pai dos mortos dos vivos,
atentos olhos e ouvidos
a nos proteger do mal,
onde o mal fosse brotar.
 
Mal que tinha muitas caras
invisíveis e sem nome:
era preciso nomeá-las
mantê-las sob seu controle.
 
(O bem tinha um nome só,
que vivíamos recitando
até sabermos de cor:
era o mesmo do Tirano.)
 
O mal que nos ameaçasse,
era feito uma neblina,
mal discreto, que sabia
disfarçar-se de beleza.
 
Mas não podia enganar
o nosso supremo líder,
com o seu faro infalível
e o seu penetrante olhar.
 
Muita gente foi expurgada
dos empregos, das famílias,
expulsos das próprias casas
saqueadas pelas milícias.
 
Silenciados, os artistas
(seus piores inimigos)
foram presos ou banidos;
suas obras, proibidas.
 
Houve os que se revoltaram:
seus corpos, despedaçados,
foram expostos no alto
dos postes, muros, fachadas...
 
Devorados, sem demora,
por corvos, lobos e ratos,
com eles foi-se a revolta,
da qual ficamos curados.
 
E pra que o peso excessivo
da culpa pelas maldades
que o Tirano cometera
de pronto não o esmagasse,
nós com ele o dividimos,
aliviando sua consciência.
 
Quem, outrora, a cavalgar
sobre os corpos dos vencidos,
em incontáveis batalhas,
grande alegria encontrava,
ora de pena era digno;
pois de uns tempos para cá,
já não era mais que a sombra,
o tirano, do que fora.
 
Esses mortos, ele os via
como se estivessem vivos,
quais minúsculas formigas,
no açucareiro de prata
que lhe trazia a criada
pra adoçar o chá das cinco.
 
E o medo, seu grande aliado
voltou-se contra ele mesmo,
passando a ser costumeiro
conviva, sempre a seu lado.
 
E ao ver no esquife o seu corpo
receber tais homenagens
(agora, que estava morto,
ainda mais altas que em vida),
ninguém imaginaria
que ele era tão covarde.
 
Pois o Tirano, eu garanto
(e isso era dele segredo,
que ninguém ficou sabendo),
senhor da morte e da vida,
dono de léguas de campo,
com tudo que havia em cima,
tendo aos pés o mundo inteiro,
não foi senhor de si mesmo.