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sábado, 20 de outubro de 2018

Vinte anos de Dança das Palavras

Clique na  imagem para ler os poemas do livro.
Aproxima-se mais uma Feira do Livro de Porto Alegre onde, há exatos vinte anos, eu autografava meu terceiro livro. Editado dentro da Coleção 2000 pelo Instituto Estadual do Livro (à época dirigido pelo Arnaldo Campos), o livro trazia 51 poemas escritos ao longo dos anos 1990. O projeto gráfico, essa lindeza aí do lado, era do Flávio Wild, que aceitou sugestões minhas e utilizou fotos que o Ricardo de Abreu Neves tirou de meus atormentados rascunhos, especialmente para a ocasião. E ainda tinha o Luís Augusto Fischer, que escreveu um "Prefácio Contra".

O título faz referência a uma ênfase maior na "música" das palavras - o ritmo e as rimas - tendência que foi se firmando cada vez mais na produção posterior, superando uma abordagem mais visual que eu tinha até então. Parte importante dessa "descoberta" deve-se à oportunidade de frequentar um curso de extensão em Poética (única "oficina" que fiz na vida), ministrado no ano anterior na PUC pelo poeta Armindo Trevisan, que insistia para lermos os poemas em voz alta (algo que eu até então achava meio vulgar). Trevisan também teve a gentileza de fazer uma leitura crítica nos originais do livro, antes de eu enviá-los ao IEL.

Para comemorar a data, disponibilizei a íntegra dos poemas no meu site. (Onde já se encontram os livros anteriores, Viagens de uma Caneta por meus Estados de Espírito, de 1992, e O Primeiro Anel, de 1996). Todos estão esgotados, mas se você gostou dos poemas, vai encontrar uma seleção deles no meu livro mais recente, Luta+vã, à venda no site da Editora Libretos.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Lições do mestre Armindo Trevisan aos 50 anos de poesia

Meu exemplar do primeiro livro de Trevisan,
resgatado de um baú de saldos da Feira do Livro.
Não faz muito eu lembrava aqui dos 25 anos do meu primeiro livro, Viagens de uma Caneta por meus Estados de Espírito. Mas ficou faltando uma parte importante da história.

Na ocasião, o troféu atribuído pelo Prêmio UFRGS de Literatura (que tive de brigar pra receber) levou o nome do poeta e professor Armindo Trevisan. Coube ao Juremir Machado da Silva, em sua coluna no Correio do Povo, lembrar que o Trevisan está completando 50 anos de carreira, iniciada em 1967 com a publicação de A Surpresa de Ser. Livro que, por sua vez, foi contemplado com o prêmio Gonçalves Dias, da União Brasileira de Escritores, tendo como jurados nada menos que Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Cassiano Ricardo. Logo, concluí, utilizando meus conhecimentos matemáticos, quando da minha estreia em livro Trevisan completava 25 anos da sua.

Mas não sendo este um blog de numerologia, vamos adiante. Quis o destino que não nos conhecêssemos naquele momento. Ele não pode vir ao meu lançamento, por se encontrar em viagem, fora do país. Isso só veio a acontecer cinco anos mais tarde, quando me matriculei no curso de extensão que ele ministrou na PUC-RS, A Poesia como Conhecimento e Experiência. Naquele momento, eu preparava meu terceiro livro, para submetê-los ao Instituto Estadual do Livro, que viria a publicá-lo no ano seguinte, sob o título de Dança das Palavras. Trevisan generosamente leu os originais, fazendo críticas muito bem-vindas. Sem contar o curso em si mesmo, em que tratava, com entusiasmo contagiante, de conteúdos de ordem prática sobre poesia (que não se encontravam no Mestrado em Letras, que eu cursava na época), muito úteis.

Talvez a mais importante das lições aprendidas naqueles dias, e incorporada ao que escrevi deste então, foi a de ler os poemas em voz alta. Até então, eu pensava o metro e a rima dos versos muito visualmente. Tímido, nunca fui afeito à declamação. Mas desde então, o ritmo passou a ter uma importância cada vez maior até hoje, quando muitas vezes é o ritmo de uma frase qualquer que me chama a atenção e, ao ser anotado, transforma-se no primeiro verso de alguma coisa que ainda não sei o que será.

Para homenagear o mestre, vai aqui um singelo poema escrito naqueles dias, como um exercício  proposto por ele. O último verso, de Fernando Pessoa, é tomado como tema do poema, que foi selecionado para uma antologia no concurso Via Verso, da Prefeitura de Ourinhos SP, ainda naquele ano; e incluído depois em Dança das Palavras.

GLOSANDO PESSOA 

Mal percebo o sentimento
Mais adorável do mundo,
E ele se vai, após curto
E belo espaço de tempo.

E eis que me concentro tanto
No breve instante perdido,
Que finalmente me canso,
E cansado então desisto.

Bem depois, quando nem penso
Em coisa nenhuma, sinto
Tornar, pleno, o momento:
Sentir é estar distraído.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Um dia para pensar em quem não tem infância

Imagem do documentário Os Carvoeiros, de Nigel Noble (1999)
Para esse dia das crianças, deixo um recado nada festivo, mas oportuno e necessário.

Nos anos 1990, visitei no campus central da UFRGS uma exposição itinerante dedicada ao trabalho infantil, e fiquei chocado com as imagens que vi. Pensei então numa série de poemas que tratasse deste assunto. A forma de inocentes cantigas de roda serve de contraste à crueldade a que estão submetidas tantas crianças, situação ainda comum no Brasil e pelo mundo afora, como os noticiários nos lembram frequentemente.

O tríptico (conjunto de três poemas) que resultou dessa ideia foi premiado (terceiro lugar) no Concurso Mário Quintana do Instituto de Letras da UFRGS, em 1997.  Entre todos meus poemas, é provavelmente o mais publicado (em papel, ao menos). Além de figurar no meu segundo livro Dança das Palavras, publicado pelo Instituto Estadual do Livro em 1998; e no mais recente Luta+Vã (Libretos, 2012)), integrou duas coletâneas de poetas gaúchos: a primeira no número 9 da extinta revista Continente Sul-Sur, também do IEL, e a segunda publicada pela Assembleia Legislativa do RS, com organização do Dilan Camargo.


CANTIGAS DE RODA TÍPICAS DAS ÍNDIAS OCIDENTAIS 

I.

Atirei um pau no mato
O mato me devolveu
Menino não fez carvão
Foi de noite, não comeu

Menino que tosse, tosse
Menino, deixa eu sonhar
Sonhar só posso de noite
(Será fumaça ou luar?)

Eu sonhei que no cerrado
Eucalipto tinha não
Dia e noite só chovia
Molhava todo o carvão

(Lamento estragar o seu churrasco...)

II.

A foice cortou meu dedo,
e o sangue não era doce.
Tive medo,
ou bem melhor: desespero.
Também tive fome, e raiva.
Muita raiva.

Mas fiquei cortando a cana
até completar a cota
desse dia.
Até que o céu se tingisse
igual à cor de meu sangue
derramado.

Acho que eu queria mesmo
tingir o açúcar, tão branco,
de vermelho.
Açúcar que eu nunca vejo,
que recheia açucareiros,
há mais de trezentos anos.

(Quantos dedos, mãos e braços
de quantos meninos mortos,
em branco açúcar tornados,
já terão alimentado
engenho, fábrica, usina;
finas taças adoçado

com seu sangue?

III.

Primeiro foi meu pai,
segundo meu irmão,
terceiro já não lembro.
A mãe não falou nada:
se falasse, apanhava.
Depois, fugi de casa,
para não virar escrava.

— Ó prostitutazinha,
vamos brincar de amor?
— Brincar não sei que é,
não senhor.

Só sei que, de repente,
estava na avenida,
alugando meu ventre
só pra estrangeiro rico.
(Um ’té me deu presente:
queria me adotar,
levar junto com ele.)

— Ó prostitutazinha,
vamos brincar de amor?
— Amor não sei que é,
não senhor.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Os funcionários também amam

... E o poema desta semana vai dedicado ao funcionalismo público, esse herói e vilão, admirado e odiado, cuja data comemoramos hoje. Como em muitas outras ocasiões, foi inspirado num fato cotidiano, a partir do singelo espanto causado pela irrupção da poesia em meio a uma visita prosaica a uma repartição pública.

Faz parte do meu terceiro livro, Dança das Palavras (Instituto Estadual do Livro, 1998)

Recomendo ler em voz alta, para melhor sentir o ritmo.


PASSAPORTES


A agente da Polícia Federal
que expede documentos de viagem
encontra-se entediada esta manhã.
Talvez por isso mesmo ela debruça
os olhos sobre um verso de Camões.

Na velha escrivaninha então se passam
as doudas aventuras que esta vida
negou-lhe por haver nascido tarde,
ou cedo; ou num país desventurado;
ou que ela mesma evita, quando pode.

E é justo esse momento de tamanho
encanto, que eu estrago quando chego
querendo renovar meu passaporte.

Só resta a mim voltar daqui dois dias
— é o prazo em que se apronta o documento,
e dar-lhe de presente este poema.

domingo, 17 de julho de 2016

Tragédias, filmes, poemas: adeus a Babenco

O cartaz do filme de Babenco
Esta semana o Brasil perdeu seu grande diretor argentino (de nascimento, só pra sacanear, mas se naturalizou brasileiro), Hector Babenco, sujeito que não fazia filmes só pra encher linguiça. Era dedo na ferida direto. Meu filme preferido dele é Brincando nos campos do Senhor, ambicioso fracasso de bilheteria. Mas seu maior sucesso foi Carandiru. Em sua memória, deixo aqui este poema do meu livro Dança das Palavras (1998), inspirado na mesma tragédia, ocorrida em 2 de outubro de 1992, mas tristemente atual ainda neste novo milênio.


CARANDIRU

São cento e onze cadáveres
alinhados como latas
de sardinha na gôndola
do supermercado.

Quase todos quase-pretos
que nunca mais serão pobres,
redimidos a mordidas
de cães e tiros na nuca.

Enfim salvos da prisão
perpétua em que nasceram
todos, da luta sem fim
pra ser-brasileiro.

Cento e onze deputados,
enquanto isso, negociam
seus votos, almas e sonhos
de algum futuro.

E em cada esquife carregam
algo de nós. — Eu deliro:
num, julgo ver Tiradentes;
noutro vai Pedro Primeiro;

num terceiro, Bonifácio.
Chico Mendes, Guimarães,
Prestes e Simon Bolívar,
José Martí, Che Guevara...

Cada um morrerá um pouco
mais a cada dia destes,
em que um Estado se expresse
em tiros na nuca e dentes
de cães amestrados
(porém comandados
por homens selvagens).

(Pensando bem, os selvagens
de verdade nada ganham
na comparação equívoca.
Esses homens também são
amestrados, a seu modo.)

domingo, 5 de junho de 2016

No dia do meio ambiente, um poema submarino

"O barco que despertou mil sonhos de criança". Dez anos após a morte de seu
comandante, o Calypso estava prestes a ser leiloado, mas em breve deve
voltar a navegar, totalmente restaurado, segundo o Telegraph.
O poema desta semana sai com atraso, mas eu tinha dado um bônus na semana passada, OK? Então vamos lá, comemorar o Dia do Meio Ambiente.

Em 25 de junho de 1997, morria Jacques-Yves Costeau, um marinheiro e mergulhador que virou inventor e cineasta (chegou a ganhar a Palma de Ouro em Cannes). Seus filmes ajudaram a criar o que chamamos hoje com naturalidade de consciência ecológica, coisa desconhecida há algumas décadas, quando os assistíamos, ainda crianças, em TVs preto-e-branco. Tinha 87 anos. 

A frase com que a família anunciou sua morte, lida nos noticiários, já era um verso. (Em português, um verso eneassílabo, com ritmo binário.) Pedia uma continuação, e eu não pude resistir. O poema saiu no livro Dança das Palavras (Instituto  Estadual do Livro-RS, 1998).

a Jacques Cousteau, ontem falecido

I.
“Jacques Cousteau voltou ao mundo do silêncio”
— Bela frase, com que a família quis
dizer aos miseráveis habitantes
do planeta mais belo do Universo,
a todos eles, seres vivos: PACIÊNCIA!

Milhões de pessoas que não se conhecem
olharão por um momento o horizonte
limpo ou borrascoso de infinitas praias,
adicionando a eles sua própria gota
de água salgada.

Gaivotas e urubus, na dor irmanados,
hoje não disputarão seu alimento,
entre resíduos da pesca artesanal
ou predatória.

Não se verá saltando um só golfinho
à luz do sol, exceto os tristes escravos
que vivem nas piscinas de Miami.

E no Atol de Mururoa, barreiras
de coral irão erguer-se até as nuvens,
tornando-se invencíveis
para os governantes de bombas atômicas.

II.
 Ele, que trouxe à superfície o que não
existia: Mundo Novo, o primeiro
a ser criado; Sexto Continente,
onde o caos ainda reina
— ou será nos outros cinco?

Magro e feliz como Dom Quixote,
montado à proa do Calypso,
o capitão Cousteau esgrime imagens
para dentro de nossa sala de visitas.
(Irá o polvo espirrar tinta preta
sobre a toalha de mesa?

Voltará o mundo a ser o mesmo
depois de suas viagens?
Poderei nadar no doméstico açude
sem temer criaturas outrora ocultas
sob a superfície, e que hoje parecem
tão naturais à imaginação,
depois de realizadas por sua lente?

Foi-se em paz, ou desespero,
para sempre, nesse último mergulho?
Com a fronte iluminada de um santo
que simplesmente fez-se ao mar?
Ou lamentando a estupidez dos homens?

Ou voltará,
como o índio de Caetano Veloso,
“depois de exterminada a última nação indígena”
com a poderosa arma química extraída
pelos japoneses
do fígado da última baleia azul?